História · Apucarana

Ferra Mula:
a sala de visitas de Apucarana

Desde 1958, um grupo de amigos transformou um cheiro de sopa num ato de amor pela cidade. Quase sete décadas depois, a tradição não parou.

29 de Abril de 2026 · Semi Salomão Filmes
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Numa tarde de domingo de 1958, um grupo de amigos se reuniu num corredor de Apucarana para conversar e tomar umas. Uma criança se aproximou atraída pelo cheiro de sopa. Eles serviram. Depois outra criança. Depois um idoso. O que era prosa virou filantropia — e nunca mais parou.

O Ferra Mula não foi fundado por decreto. Não nasceu de uma reunião de planejamento nem de um estatuto. Nasceu da mesa. Do cheiro. Da generosidade espontânea de homens que perceberam que tinham algo a mais para dar além da boa companhia.

A Associação Filantrópica Ferra Mula — registrada legalmente em 28 de janeiro de 1963 — é hoje uma das instituições mais longevas e singulares do norte do Paraná. Com sede própria na Avenida Irati, no centro de Apucarana, completou 65 anos em 2023 com a mesma essência de quando começou: servir quem precisa, sem alarde.

Ferra Mula 65 anos – 2023
Ferra Mula celebra 65 anos de história em 2023 — com os sócios reunidos para a ocasião

O nome que ficou

A origem do nome tem duas versões — e as duas são verdadeiras, porque se completam.

A primeira é simbólica: a mula foi o animal que carregou Jesus Cristo em sua peregrinação. Humilde, resistente, de carga. Um nome adequado para uma associação que existe para servir.

A segunda é mais prosaica, e é a que os sócios contam com mais prazer. Quando um homem bebia demais e saía cambaleando, o povo de Apucarana dizia que ele tinha "ferrado a mula". Era o que acontecia todo domingo naquelas reuniões. O nome ficou. E com ele, a ferradura virou símbolo — e a cerimônia de entrada do novo sócio se tornou um ritual único: os cravos da ferradura são simbolicamente aplicados nos dois pés do recém-admitido. Uma vez ferrado, sempre ferrado.

"Aqui tem o dedinho do Papai do Céu"

Reinaldo Zanetti de Oliveira conhece o Ferra Mula há 33 anos. Foi presidente três vezes. É um dos homens que sustentam, semana após semana, o funcionamento de uma máquina que parece não ter segredo — mas tem.

Reinaldo Zanetti de Oliveira, presidente do Ferra Mula
Reinaldo Zanetti de Oliveira — presidente do Ferra Mula por três mandatos, 33 anos de casa
"Aqui tem o dedinho do Papai do Céu. Hoje nós assamos uma média de 500 a 800 kg de carne toda quarta-feira. É uma média de 380 a 400 pessoas por quarta-feira."
Reinaldo Zanetti de Oliveira · Presidente do Ferra Mula

As reuniões, que nasceram nos domingos de manhã, migraram para as quartas-feiras à noite. A churrasqueira cresceu. O número de pessoas também. Mas o princípio não mudou: todo o lucro das costelas é revertido para ações sociais. Os sócios trabalham de graça. Pagam mensalidade. E servem.

Churrasqueiros do Ferra Mula preparando a costela
A famosa costela do Ferra Mula — assada na mesma brasa de sempre, toda quarta-feira

São 19 entidades cadastradas que recebem doações ao longo do ano. O valor anual gira entre R$ 5 mil e R$ 7 mil em ações contínuas — sem contar os atendimentos pontuais, que já chegaram a mais de R$ 50 mil numa única ação, para casos de incêndio, doença ou tragédia.

Ferra Mula em números
1958
Ano de fundação informal
52
Sócios — um por domingo do ano
800 kg
De costela assada por semana
19
Entidades beneficiadas por ano

A sala de visitas da cidade

Há algo no Ferra Mula que vai além da costela e da filantropia. O clube se tornou, ao longo das décadas, o lugar onde Apucarana recebe o mundo.

"O Ferra Mula virou a sala de visitas de Apucarana. Quando um empresário vai receber um político, vai fechar um grande negócio, marca para quarta-feira no Ferra Mula. Aqui não tem cor, não tem quem é mais, quem é menos. A gente trata todo mundo igual."
Reinaldo Zanetti de Oliveira · Presidente

Grandes decisões que moldaram o norte do Paraná foram tomadas — ou ao menos amadurecidas — à mesa do Ferra Mula. Ideias políticas, parcerias comerciais, projetos para a cidade. Zanetti conta isso sem vaidade, apenas como fato: "Isso tem visto isso, tem visto isso com frequência."

Um dia de quarta-feira no Ferra Mula
Uma quarta-feira no Ferra Mula — o ritual semanal que une sócios, visitantes e a cidade há quase sete décadas

O Natal de 12 mil crianças

Se as churrasqueiras são a face mais conhecida do Ferra Mula, o Natal é sua face mais comovente. Em seus anos de auge, a associação chegou a distribuir 12 mil presentes de Natal para crianças carentes de Apucarana — formando filas de até 300 metros de comprimento na Praça da Catedral.

Caminhões carregados de brinquedos se tornaram uma imagem recorrente no fim de ano da cidade. Uma memória que os moradores mais velhos guardam com nitidez.

Uma história de 1958 — e a foto antiga que sobreviveu

A foto em preto e branco diz tudo o que palavras não conseguem. Homens ao redor de uma churrasqueira enorme, aventais, espetos na mão, garrafas sobre a bancada de tijolos — e aquele sorriso de quem sabe que fez algo bom naquele dia. A balança no canto direito da foto é um detalhe quase poético: até o peso da carne era medido com cuidado.

Foto antiga do Ferra Mula
Registro histórico do Ferra Mula — a mesma churrasqueira, o mesmo espírito, outra geração

Em setembro de 1985, a Folha de Londrina dedicou uma página inteira ao clube, descrevendo-o como "respeitado e admirado em Apucarana e região". Já naquele momento, o Ferra Mula era citado como referência nacional. O churrasqueiro oficial da época, Milton Tomizaki, preparava 500 quilos de costela toda semana — um número que só cresceu desde então.

No Cinema

Apucarana – Cidade Oculta
traz o Ferra Mula para a tela

A história do Ferra Mula integra a narrativa do longa-metragem dirigido por Semi Salomão — um filme que percorre a memória viva de Apucarana através de gerações, vozes e lugares que definiram a cidade. O avô do diretor era sócio do clube.

17 de Maio · Apucarana  ·  29 de Maio · Festival Cine Tornado · Curitiba

Conhecer o filme →
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