Desde 1958, um grupo de amigos transformou um cheiro de sopa num ato de amor pela cidade. Quase sete décadas depois, a tradição não parou.
Numa tarde de domingo de 1958, um grupo de amigos se reuniu num corredor de Apucarana para conversar e tomar umas. Uma criança se aproximou atraída pelo cheiro de sopa. Eles serviram. Depois outra criança. Depois um idoso. O que era prosa virou filantropia — e nunca mais parou.
O Ferra Mula não foi fundado por decreto. Não nasceu de uma reunião de planejamento nem de um estatuto. Nasceu da mesa. Do cheiro. Da generosidade espontânea de homens que perceberam que tinham algo a mais para dar além da boa companhia.
A Associação Filantrópica Ferra Mula — registrada legalmente em 28 de janeiro de 1963 — é hoje uma das instituições mais longevas e singulares do norte do Paraná. Com sede própria na Avenida Irati, no centro de Apucarana, completou 65 anos em 2023 com a mesma essência de quando começou: servir quem precisa, sem alarde.
A origem do nome tem duas versões — e as duas são verdadeiras, porque se completam.
A primeira é simbólica: a mula foi o animal que carregou Jesus Cristo em sua peregrinação. Humilde, resistente, de carga. Um nome adequado para uma associação que existe para servir.
A segunda é mais prosaica, e é a que os sócios contam com mais prazer. Quando um homem bebia demais e saía cambaleando, o povo de Apucarana dizia que ele tinha "ferrado a mula". Era o que acontecia todo domingo naquelas reuniões. O nome ficou. E com ele, a ferradura virou símbolo — e a cerimônia de entrada do novo sócio se tornou um ritual único: os cravos da ferradura são simbolicamente aplicados nos dois pés do recém-admitido. Uma vez ferrado, sempre ferrado.
Reinaldo Zanetti de Oliveira conhece o Ferra Mula há 33 anos. Foi presidente três vezes. É um dos homens que sustentam, semana após semana, o funcionamento de uma máquina que parece não ter segredo — mas tem.
As reuniões, que nasceram nos domingos de manhã, migraram para as quartas-feiras à noite. A churrasqueira cresceu. O número de pessoas também. Mas o princípio não mudou: todo o lucro das costelas é revertido para ações sociais. Os sócios trabalham de graça. Pagam mensalidade. E servem.
São 19 entidades cadastradas que recebem doações ao longo do ano. O valor anual gira entre R$ 5 mil e R$ 7 mil em ações contínuas — sem contar os atendimentos pontuais, que já chegaram a mais de R$ 50 mil numa única ação, para casos de incêndio, doença ou tragédia.
Há algo no Ferra Mula que vai além da costela e da filantropia. O clube se tornou, ao longo das décadas, o lugar onde Apucarana recebe o mundo.
Grandes decisões que moldaram o norte do Paraná foram tomadas — ou ao menos amadurecidas — à mesa do Ferra Mula. Ideias políticas, parcerias comerciais, projetos para a cidade. Zanetti conta isso sem vaidade, apenas como fato: "Isso tem visto isso, tem visto isso com frequência."
Se as churrasqueiras são a face mais conhecida do Ferra Mula, o Natal é sua face mais comovente. Em seus anos de auge, a associação chegou a distribuir 12 mil presentes de Natal para crianças carentes de Apucarana — formando filas de até 300 metros de comprimento na Praça da Catedral.
Caminhões carregados de brinquedos se tornaram uma imagem recorrente no fim de ano da cidade. Uma memória que os moradores mais velhos guardam com nitidez.
A foto em preto e branco diz tudo o que palavras não conseguem. Homens ao redor de uma churrasqueira enorme, aventais, espetos na mão, garrafas sobre a bancada de tijolos — e aquele sorriso de quem sabe que fez algo bom naquele dia. A balança no canto direito da foto é um detalhe quase poético: até o peso da carne era medido com cuidado.
Em setembro de 1985, a Folha de Londrina dedicou uma página inteira ao clube, descrevendo-o como "respeitado e admirado em Apucarana e região". Já naquele momento, o Ferra Mula era citado como referência nacional. O churrasqueiro oficial da época, Milton Tomizaki, preparava 500 quilos de costela toda semana — um número que só cresceu desde então.
A história do Ferra Mula integra a narrativa do longa-metragem dirigido por Semi Salomão — um filme que percorre a memória viva de Apucarana através de gerações, vozes e lugares que definiram a cidade. O avô do diretor era sócio do clube.
17 de Maio · Apucarana · 29 de Maio · Festival Cine Tornado · Curitiba
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